Podcast Café Brasil Curto 718 - No lugar do outro

Data de publicação: 18/05/2020, 16:40

 

https://www.youtube.com/watch?v=izIXvKms1Gc

É nos momentos de tempestade, de crise, quando não há um horizonte visível, quando temos de lutar pela sobrevivência, que as pessoas revelam seu verdadeiro caráter. E essa pandemia chegou para arrancar máscaras, destruir reputações, revelar os pés de barro de alguns santos e, acima de tudo, apontar nossas falhas e carências.

Mas em meio a esse terror, pessoas das mais diversas áreas surgem com atitudes fora da curva. São pessoas que cumprem suas funções, mas que têm aquele algo mais que as coloca numa categoria especial.

Vamos falar um pouco sobre elas hoje

Bom dia, boa tarde, boa noite. Você está no Café Brasil e eu sou o Luciano Pires.

Posso entrar?

Olá Luciano,

Meu nome é Camila, te acompanho desde.... melhor nem falar há quanto tempo. Kkkkkk Bem, desde o comecinho do Café Brasil.

Você tem me acompanhado, mesmo sem saber, durante muitos anos e vários altos e baixos da minha vida. Todos esses anos foram uma grande montanha russa. Casei, tive dois filhos lindos, mudei de cidade, mudei de carreira, terminei duas graduações, fiz minha especialização, mestrado e agora estou no doutorado, separei e... ufa!!! Me deparo agora com um momento extremamente desafiador na minha carreira: a tão falada pandemia do COVID-19.

Sou enfermeira, trabalho em hospital público, em Pronto Socorro e UTI. Daqui a pouco falarei um pouco sobre isso.

Primeiramente gostaria de te parabenizar pela série de programas “Heróis da Saúde” e pelos programas “Pinxando o muro”.

Quanto ao programa “Pinxando o muro” me emocionei muito, enchi os olhos d’agua e me inspirei muito, pois espero dar aos meus filhos o exemplo que este pai deu à Gabriele. Parabéns a ele.

Quanto ao que vivemos atualmente, este vírus, todas essas mudanças no mundo, nas nossas vidas, posso te dizer que não tem sido fácil para nós profissionais da saúde. Sei que não tem sido difícil apenas para nós, mas para todos. Os empresários, os trabalhadores informais, outros profissionais que lidam com a população, profissionais da limpeza, da segurança pública, do transporte público etc etc etc.

Seus programas tem sido um refresco no meio disso tudo.

Infelizmente nosso Brasil durante anos e anos não investiu dinheiro e boa gestão na saúde e na educação como todos estamos cansados de saber, e uma crise como esta apenas deixa evidente a falta de educação do nosso povo assim como a saúde precária do país, que por sua vez em vários locais já estava colapsada e agora apenas ficou evidente a todos. Infelizmente, ou felizmente, saúde e educação são coisas que colhemos o que plantamos a longo prazo, assim como aposentadoria que depende de anos de trabalho, nossa saúde pessoal que depende dos hábitos de vida de anos. Estamos agora colhendo aquilo que plantamos. Mas tenho a esperança de que possamos mudar nossas prioridades, aprender com toda esta crise e que nós eleitores, elejamos governantes que priorizem a saúde e a educação do nosso povo daqui para frente.

Adorei o programa que citou aquele evento onde as crianças ficaram presas na caverna e houve uma mobilização de várias pessoas para salvá-las. Sabe qual é a diferença Luciano? Na mesma semana em que as pessoas estavam nos chamando de heróis e batendo palmas nas sacadas dos prédios, os hospitais da minha cidade tiveram que liberar os funcionários de entrarem no trabalho sem uniforme pois os mesmos estavam sendo linchados pela população dos transportes públicos. A escola do meu filho me liga cobrando toda semana que eu esteja em casa para acompanhá-lo em aulas on line muito embora eu tenha explicado inúmeras vezes a todos lá que não tenho esse possibilidade pois estou no hospital pela manhã e em pesquisa cientificas a tarde, alguns estabelecimentos abriram para atendimento ao público mas se recusam a atender profissionais da saúde. Então Luciano, me diga, pois não consegui entender: para quem ou por quê foram as palmas nas sacadas?

Estamos trabalhando estressados muitas vezes, com uma demanda maior e menos recursos. Percebo, inclusive entre nós profissionais da área, que cada um lida de uma forma com o medo. Por exemplo: há pessoas que se trancaram em casa e não saem de forma alguma e faltam agredir a outros se os verem sem máscara na rua. Outras colocam suas máscaras e andam para todo lugar. Quanto a nós profissionais da saúde, todos temos medos também. Temos famílias, temos nossos problemas, não queremos ou “não podemos” adoecer. Mas, o que fazer com o medo? Entendo que o medo pode ser saudável e benéfico. Nos impede de trabalhar de forma inconsequente ou arriscada, nos faz usar os EPIs de forma adequada, pensar em formas mais seguras de atender à população etc. Mas ele também pode ser extremamente maléfico quando percebemos por exemplo colegas estressados, somatizando este medo, se afastando do trabalho por ansiedade, pânico, estresse etc.

Tenho aprendido muito com tudo o que está acontecendo e espero me tornar um ser humano melhor, mais nobre, mais lapidado assim como uma profissional cada vez mais competente.

Obrigada por nos fornecer esse acalanto, esse momento de relaxamento. Adoro quando você faz programas sobre música. Sou fã da banda Queen, adoro rock’n roll. Você se superou naquele programa. Para mim, sobre esta temática, foi o melhor que já ouvi de todos.

Um abraço enorme, de quem se sente muito próxima, pois te conheço há anos, apesar de você não saber quem sou. Kkkk

Putz, nada mais óbvio que depois de um comentário da Camila, tocar Camila Camila, com o Nenhum de Nós, não é? É. Mas às vezes a gente tem de ser óbvio mesmo, para ir além do óbvio, como é o caso aqui.

Olha o que o Thedy Corrêa,  Vocalista da banda disse sobre essa música:

"A música Camila, Camila veio de uma história real de uma menina que a gente conhecia na época (1985). Ela estava passando por uma situação de abuso e violência com o namorado. Acho importante num país como o Brasil fazer músicas desse tipo. Aqui é mais confortável fazer letras que estimulem o sexismo ou utilizem violência como ingrediente. Na real, acho que ninguém fala de abuso porque não vende. A questão está no que cada um acredita e quer."

Viu só? Quantas vezes você cantou Camila, Camila, sem prestar atenção na letra e pensar no que você pode fazer para ajudar as Camilas do Brasil?

Toco a música que tem o nome da Camila para homenageá-la, e em nome dela, todos os profissionais que trabalham como médicos, enfermeiros, assistentes, motoristas em hospitais públicos e privados, em Prontos Socorros e UTIs deste país.

Recebi críticas por ter abraçado o projeto Heróis da Saúde junto com a Epimed. Teve gente reclamando que bombeiros, policiais e outras categorias é que são heróis diariamente. Tá certo. Quando houver um puta incêndio ou uma catástrofe de segurança pública, eu faço um programa falando deles. Agora é hora de falar da pandemia e de quem a está combatendo nas condições que a Camila descreve.

Camila, muito obrigado pelo comentário. Dedico este programa a você.

https://www.youtube.com/watch?v=NXV6FieqbKY

Ah, que delícia... essa eu usei naquele Café Brasil sobre Blues. É Nine Pound Steel com Snooks Eaglin. E tá aqui porque a letra fala de um prisioneiro que toda manhã ao acordar dá de cara com uma grade de ferro... e se arrepende de seus erros, pedindo que sua amada o aguarde. Uma forma dura de repensar sobre seu caráter...

Sobe instrumental

Um Podsumário que distribuí para os assinantes do Café Brasil Premium e que me impactou de verdade foi o Caminho para o Caráter, de David Brooks. Na maior parte do livro o autor apresenta histórias reais, que ele chama de “contos morais”, sobre figuras históricas que desenvolveram fortes atributos de caráter, como humildade, autodisciplina e realismo moral. O autor considera que o caminho para desenvolver um caráter positivo é mergulhar conscientemente na luta entre nossos vícios e virtudes, na direção de viver uma vida moral.

Não parece coisa velha? Pois é... Mas vamos adiante. O autor inicia explicando a diferença entre as virtudes do currículo e as virtudes eulógicas.

Ele fala em “résumé virtues”, as virtudes do currículo, que compreendem as habilidades profissionais que nos ajudam a ter sucesso na carreira.

A Camila, por exemplo, estudou para ser enfermeira, aprendeu as técnicas, desenvolveu habilidades e se tornou uma profissional da saúde. Suas virtudes do currículo a qualificaram para isso.

E em seguida David Brooks fala de “eulogy virtues”, que são aquelas coisas que farão com que sejamos lembrados. O termo “eulogia” vem do grego eulogeo e pode ser traduzido como "uma benção". É uma fala benevolente, respeitosa e prudente. Pode ser um discurso fúnebre onde se exaltam as qualidades do morto.

Portanto, virtudes eulógicas são aquelas que farão com que sejamos lembrados não por nossas habilidades técnicas, mas pelo impacto moral que causamos nos outros.

São aquelas que farão com que um paciente, entre todos os profissionais de saúde que o trataram, se lembre com carinho da Camila. Nunca será por ela aplicar bem uma injeção, por fazer bem um curativo ou administrar bem os medicamentos. Será por algo que ela o fez sentir além do corpo físico. Será por um algo mais.

Cara, isso caiu como uma luva na minha palestra gente nutritiva, na qual trato exatamente das coisas que nos tornam diferentes dos outros, que vão além do que se aprende na escola ou das habilidades técnicas. Com este livro aprendi que eu tratava das virtudes eulógicas.

As virtudes eulógicas são as que estão na raiz de nosso ser e que têm a ver com os relacionamentos que formamos. Nosso sistema educacional é orientado para as virtudes do currículo mais do que para as virtudes eulógicas. Assim também são as conversas públicas, os livros de não ficção e as dicas de autoajuda nas revistas.

A maioria de nós tem estratégias claras sobre como atingir o sucesso na carreira, mas não sobre como desenvolver um caráter invejável.

Esses tipos diferentes de virtudes também podem ser compreendidos pela metáfora dos lados opostos da natureza humana, que David Brooks representa como Adão 1 e Adão 2.

O Adão 1 busca a validação externa através do sucesso na carreira e das conquistas materiais. Quer construir, criar, produzir e descobrir coisas.

O Adão 2 é motivado por virtudes morais superiores, como ser reconhecido como uma boa pessoa, amorosa e que se sacrifica pelos outros.

Enquanto Adão 1 quer conquistar o mundo, Adão 2 quer obedecer a um chamado para servir o mundo.

Esses dois impulsionadores estão sempre em conflito em nossas mentes, pois têm diferentes lógicas:

Adão 1 encarna a racionalidade econômica, enquanto Adão 2 exemplifica a lógica da moralidade.

Nossa cultura tem a tendência de valorizar mais Adão 1, o da racionalidade econômica, do que Adão 2, da lógica da moralidade, por conta das pressões da competição, dos ruídos da comunicação e do foco utilitário da sociedade de consumo.

O autor então diz que se deixarmos que Adão 1 tome conta de nossa natureza, perderemos de vista os grandes significados da vida.

Olha, não tem como não fazer os paralelos... Escrevi aquele Podsumário ainda impactado com a tragédia de Brumadinho, quando uma barragem da Vale caiu, matando mais de 300 pessoas e causando uma tragédia sem precedentes em Minas Gerais. Depois da tragédia, uma grande discussão tomou conta do país sobre as responsabilidades da Vale, uma empresa de ponta, respeitada no mundo todo e que adota os mais avançados processos tecnológicos para segurança. Mas que parece que não funcionam a contento. A razão? Para mim é clara: os indicadores de segurança dos indivíduos só estão em primeiro plano nos discursos. Na realidade, no dia a dia, primeiro vêm os resultados dos negócios, depois a segurança.

Adão 1 é mais importante que Adão 2... Parece uma explicação simplória, não é? E é. O problema não está nos processos, na capacidade da Vale, nos investimentos, na capacitação dos técnicos.

O problema é a hierarquia de valores.

 

Eu fico sempre tocado por depoimentos como o da Camila, dando detalhes da luta das pessoas que escolhem trabalhar para salvar as vidas de outras pessoas. Há muito de nobre nessa escolha.

É claro que como em toda profissão existem os fazem essa escolha unicamente como uma forma de prover a subsistência. São profissionais, Adão 1, que fazem seu trabalho com a competência suficiente para manter seus empregos. Esses só são lembrados quando não aparecem para trabalhar, sabe como é? São percebidos pela ausência e pelas cagadas que fazem.

Mas existem outros que escolhem a profissão como um chamado, como uma forma de dar sentido às suas vidas. Esses serão sempre lembrados pela presença, pelos momentos de alívio que proporcionam a outras pessoas, e que vão muito além de suas competências técnicas.

https://www.youtube.com/watch?v=JpR6TNo-SNg

Essa é uma médica, cujo depoimento viralizou pelo Instagram. Ela está às lágrimas com a situação e eu não posso imaginar o que se passa em sua cabeça para retomar o trabalho depois de viver um momento assim.

Si pô no lugar dos outros.

O nome disso é empatia.

https://www.youtube.com/watch?v=sgJpZfhdbgU

A maioria de nós, quando pensa no futuro, pensa em viver vidas felizes. Mas quando pensamos nos eventos que ao longo de nossas vidas nos impactaram e nos formaram, normalmente não falamos de momentos felizes. Buscamos a felicidade, mas é o sofrimento que forma nosso caráter. E para a maioria de nós, não há nada de nobre no sofrimento. Quando não está conectado a um propósito maior, quando não é compreendido como parte de um processo maior, o sofrimento pode simplesmente nos destruir.

Mas algumas pessoas conseguem conectar o sofrimento a algo maior, em solidariedade a outros que sofrem. Essas pessoas são enobrecidas por esse sofrimento.

Não é o sofrimento que faz a diferença, mas a forma como ele é experimentado.

A consciência de que você está indo além do superficial, se aproximando do fundamental, cria o que a psicologia moderna chama de “realismo depressivo”, a habilidade de ver as coisas exatamente como elas são. Além disso, o sofrimento nos dá um senso mais claro de nossas limitações, do que podemos ou não controlar. O sofrimento, assim como o amor, destrói a sensação de que somos autossuficientes. E o sofrimento também nos ensina a gratidão. O que nos torna mais humanos.

A lição é que em vez de nos perguntarmos “Por que comigo?” ou “Por que esse mal?”, aprendemos a perguntar “O que é que eu farei se me defrontar com o sofrimento ou for vítima de algum mal?”

Recuperar-se de um sofrimento não é o mesmo que recuperar-se de uma doença.

Muitas pessoas não saem de um sofrimento curadas, saem diferentes. E assim o sofrimento pode se tornar uma dádiva, muito diferente daquela outra chamada felicidade.

Felicidade traz prazer, o sofrimento cultiva o caráter.

Bem, caminhando para o final, quero retomar um trecho da fala da Camila, que ilustra muito bem a questão da empatia:

“Quanto a nós profissionais da saúde, todos temos medos também. Temos famílias, temos nossos problemas, não queremos ou “não podemos” adoecer. Mas, o que fazer com o medo? Entendo que o medo pode ser saudável e benéfico. Nos impede de trabalhar de forma inconsequente ou arriscada, nos faz usar os EPIs de forma adequada, pensar em formas mais seguras de atender à população etc. Mas ele também pode ser extremamente maléfico quando percebemos por exemplo colegas estressados, somatizando este medo, se afastando do trabalho por ansiedade, pânico, estresse etc.

Tenho aprendido muito com tudo o que está acontecendo e espero me tornar um ser humano melhor, mais nobre, mais lapidado assim como uma profissional cada vez mais competente.”

https://www.youtube.com/watch?v=sgJpZfhdbgU

É assim então, com O Sol, composição de Antônio Júlio Nastácia, na intepretação do Jota Quest com Rogério Flausino e Milton Nascimento, que vamos saindo pensativos.

O Café Brasil é produzido por quatro pessoas. Eu, Luciano Pires, na direção e apresentação, Lalá Moreira na técnica, Ciça Camargo na produção e, é claro, você aí ó, completando o ciclo.

Olha, com este programa eu quero não só homenagear as pessoas que se dedicam, por aquele chamado, a aliviar o sofrimento dos outros, mas também espero que você tenha compreendido que podemos tirar ensinamentos valiosos do sofrimento. Sim, eu sei, é complicado, dói pra caramba, é fácil falar quando não é com a gente... Mas eu repito: a gente não sai de um sofrimento curado. Sai diferente. E esse diferente pode ser amargurado, infeliz, inseguro... ou pode ser mais maduro, motivado e com uma armadura emocional reforçada. É você quem escolhe o que fará com o que o sofrimento faz com você.

De onde veio este programa tem muito mais, especialmente para quem assina o cafebrasilpremium.com.br, nossa “Netflix do Conhecimento”, onde você tem uma espécie de MLA – Master Life Administration. Então acesse cafedegraca.com e experimente o Premium por um mês, sem pagar.

O conteúdo do Café Brasil pode chegar ao vivo em sua empresa através de minhas palestras. Acesse lucianopires.com.br e vamos com um cafezinho ao vivo.

Mande um comentário de voz pelo WhatSapp no 11 96429 4746. E também estamos no Telegram, com o grupo Café Brasil.

Para terminar, uma frase de Florence Nightingale, a mulher que fundou a Enfermagem moderna e destacou-se no tratamento de feridos em guerras:

A Enfermagem é uma arte; e para realizá-la como arte, requer uma devoção tão exclusiva, um preparo tão rigoroso, quanto a obra de qualquer pintor ou escultor; pois o que é tratar da tela morta ou do frio mármore comparado ao tratar do corpo vivo, o templo do espírito de Deus? É uma das artes; poder-se-ia dizer, a mais bela das artes!

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